quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Eu tinha por ti amor

eu tinha por ti amor
e ainda não havia lido
nem escrito nem vivido nada igual
eu tinha por ti um sentimento
que não havia sido previsto, intuído
não havia sinal de reconhecimento
por isso ainda deixo a porta aberta
não entra você, entra o vento
todo amor desconhecido
precisa se entender com o tempo

Martha Medeiros

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Pra me conquistar

pra me conquistar
basta dizer tudo aquilo
que nunca ouvi de ninguém
vestir como homem e não como gay
me tocar sem medo, sem segredo
entrar e sair da rotina sem que eu note
me levar para lugares exóticos
e lugares comuns
saber ficar em silêncio e assim me dizer tudo
gostar de rock como eu gosto
e de coisas que eu não gosto
compreender a vida como é
e buscar o outro lado
saber a hora exata de ficar
e ir embora
mas não vá.

Martha Medeiros

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Vitrine

não morro de amores
por pessoas sem mistério
quando se é muito transparente
muito risonho e educado
é raro ser levado a sério
prefiro os mais silenciosos
os que abrem a boca de menos
os mais serenos e mais perigosos
aqueles que ninguém define
e que sempre analisam os fatos
por um novo enfoque
prefiro os que têm estoque
aos que deixam tudo à mostra na vitrine.

Martha Medeiros

domingo, 2 de agosto de 2009


É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.
É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.
O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.
O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.
O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence.

Cecília Meireles

(Poema que da nome ao blog)

Os dragões não conhecem o paraíso

"...Aos poucos, na ausência dele, enquanto tentava compreendê-lo. Cada vez menos para que minha compreesão fosse sedutora a ponto de convencê-lo a voltar , e cada vez mais para que essa compreensão ajudasse a mim mesmo. Não sei dizer. Quando penso desse jeito, enumero proposições como: a ser uma pessoa menos banal, a ser mais forte, mais seguro, mais sereno, mais feliz, a navegar com o mínimo de dor. Essas coisas todas que decidimos fazer ou tornar quando algo que supúnhamos grande acaba, e não há nada a ser feito a não ser continuar vivendo.
Então que seja doce .Repito todas as manhãs , ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias , bem assim: que seja doce. Quando há sol esse sol bate na minha cara amassada de sono ou de insônia…Mas , se laguém me perguntasse que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se fosse nada…
Pensava ás vezes em tratá-lo dessa forma, pelo avesso, para que fossêmos mais felizes juntos. Nunca me atrevi. E , agora que se foi , é tarde demais para tentar requintadas harmonias.
Eu o amava . Eu o amo ainda, quem sabe mesmo agora, quem sabe mesmo sem saber direito o significado exato dessa palavra seca- amor … dormindo ou acordado, eu recebia sua partida como um súbito soco no peito. Então olhava para cima, para os lados, à procura de Deus ou qualquer coisa assim- hamadríades, arcanjos, nuvens radioativas, demônios que fossem. Nunca os via. Nunca via nada além das paredes de repente tão vazias sem ele… Mais triste :nunca mais nenhuma vontade de ser feliz dentro da gente, mesmo que essa felicidade nos deixe com o coração disparado , mãos úmidas , olhos brilhantes e aquela fome incapaz de engolir qualquer coisa… As manhãs são boas para acordar dentro delas , beber café , espiar o tempo. Os objetos são bons de olhar para eles , sem muitos sustos , porque são o que são e também nos olham, com os olhos que nada pensam. Desde que o mandei embora, para que eu pudesse enfim aprender a grande desilusão do paraíso, é assim que sinto: quase sem sentir…Mas respiro fundo, esfrego as palmas das mãos, gero energia de mim. Para menter-me vivo, saio à procura de ilusões …. fico cansado do amor que sinto, e num enorme esforço que aos poucos se transforma numa espécie de modesta alegria, tarde da noite , sozinho neste apartamento… repito e repito este meu confuso aprendizado para a criança-eu-mesmo sentada aflita e com frio nos joelhos do sereno velho-eu-mesmo:

-Dorme, só existe o sonho. Dorme, meu filho.
Que seja doce.
Não , isso também não é verdade

Caio Fernando Abreu