quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Poema mais ou menos de amor



Luís Fernando Veríssimo

Eu queria senhora, ser o seu armário
E guardar seus tesouros como um corsário.
Que coisa louca: ser seu guarda-roupa!
Alguma coisa sólida, circunspecta e pesada
Nessa sua vida tão estabanada.
Um amigo de lei (de que madeira eu não sei).
Um sentinela do seu leito – com todo respeito.
Ah, ter gavetinhas para suas argolinhas.
Ter um vão para o seu camisolão
E sentir o seu cheiro, senhora, o dia inteiro.
Meus nichos como bichos
Engoliram suas meias-calças, seus sutiãs sem alças.
E tirariam nacos dos seus casacos.
Ah, ter no colo, como gatos, os seus sapatos.
E no meu chão, como trufas, suas pantufas...
Seus echarpes, seus jeans, seus longos e afins.
Seus trastes e contrates.
Aquele vestido com asa e aquele de andar em casa.
Um turbante antigo. Um pulôver amigo.
Bonecas de pano. Um brinco cigano.
Um chapéu de aba larga. Um isqueiro sem carga.
Suéteres de lã e um estranho astracã.
Ah, vê-la se vendo no meu espelho, correndo.
Puxando, sem dores, os meus puxadores.
Mexendo com o meu interior – à procura de um pregador.
Desarrumando o meu ser
Por um prêt-à-porter...
Ser o seu segredo,
Senhora,
E o seu medo.
E sufocar,
Com agravantes,
Todos os seus amantes.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Gota de Água




Eu, quando choro,
não choro eu.
Chora aquilo que nos homens
em todo o tempo sofreu.
As lágrimas são minhas
Mas o choro não é meu.

António Gedeão



É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

Eugénio de Andrade

domingo, 14 de dezembro de 2008

Poema da despedida




Não saberei nunca
dizer adeus

Afinal,
só os mortos sabem morrer

Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser

Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo

Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos

Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca

Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo

Mia Couto

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008


Todos os jardins deviam ser fechados,
com altos muros de um cinza muito pálido,
onde uma fonte
pudesse cantar
sozinha
entre o vermelho dos cravos.
O que mata um jardim não é mesmo
alguma ausência
nem o abandono...
O que mata um jardim é esse olhar vazio
de quem por eles passa indiferente.

Mario Quintana

[porque de sonhos tem vivido a (minha) felicidade]



um dia, quando a ternura for a única regra da manhã, acordarei
entre os teus braços. a tua pele será talvez demasiado bela. e a luz
compreenderá a impossível compreensão do amor. um dia, quando
a chuva secar na memória, quando o inverno for tão distante,
quando o frio responder devagar como a voz arrastada de um velho,
estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da nossa janela.
sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso será culpa
minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi nem uma
palavra, nem o princípio de uma palavra, para não estragar a
perfeição da felicidade

José Luís Peixoto